Do fotógrafo e do outro

Do fotógrafo e do outro

Nunca é fácil falar das imagens de José Chambel; esta dificuldade está na razão inversa da nossa adesão a elas. Por muito simples que (a)pareçam, são sempre constituídas por múltiplas camadas de sentido. E mesmo se isso não deixa de ser uma característica essencial da imagem fotográfica, nem todos conseguem, obviamente, trabalhar essa característica de modo a construir narrativas coerentes que nos dão a ver, em simultâneo, diversos aspetos de uma mesma realidade.

Estamos perante um trabalho com fortes características do que é convencional chamar de documental. Numa primeira leitura, Chambel dá-nos a ver a realidade particular de um grupo de pessoas que se dedica à representação do “Danço Congo” que ocupa, a par de outras representações, um lugar particular no folclore de São Tomé. É interessante este lado na escolha do tema, lateral ao interesse particular em documentar aquela realidade específica. A realidade aqui é já ela própria representação, um duplo de outra coisa, o que adere na perfeição ao lado representacional da fotografia. Como se o próprio dispositivo estivesse manifesto no fotografado, como um jogo de espelhos que nos devolve a imagem não apenas do que vemos mas como vemos.

Percebemos que não é um olhar de fora, distanciado da realidade, como o de alguém que chega sem perceber onde está. Há uma proximidade, visível não só na distância entre o fotógrafo e o fotografado que nos mostra a proximidade dessa relação de parte a parte, como na escolha dos cenários, desde os exteriores mais amplos até lugares mais recatados acabando no interior das próprias casas.

A presença humana é o que se impõe de modo mais forte no trabalho. De todas as categorias da prática fotográfica, o retrato é, sem dúvida, a mais complexa de todas. Devido sobretudo à sua ambiguidade enquanto representação, entre a mera semelhança que nos permite reconhecer alguém e a revelação das qualidades que tornam esse alguém num alguém preciso (e aqui utilizo a palavra revelação não só no sentido fotográfico do termo mas igualmente no sentido ontológico). Curiosamente, não só foi o retrato um dos grandes responsáveis pela industrialização da fotografia como hoje o rosto é um dos temas por excelência da prática fotográfica em tempos de redes socias e da constante banalização da imagem de cada um. O retrato é, assim, uma prática ambígua: uma evidência na linguagem comum, uma situação complexa quanto ao ato fotográfico. O retrato tenta ir além da aparência. É um jogo complexo entre o que vê e o que é visto, entre o eu que está frente à câmara, o ele que o fotógrafo vê, o eu/ele que se projeta para lá do momento presente e o eu/ ele que nós vemos (cf. Barthes).

Apesar da diversidade de situações em que constrói os seus retratos, parece ser nos interiores onde se verifica melhor as dificuldades e desafios que constituem o retrato: trazer o eu/ outro da sombra para a luz, deixar que a luz lhe ilumine rosto. Estes retratos evocam essa luta entre as sombras e a luz, o esforço de trazer o retratado para a visibilidade. São retratos que parecem testar esse limite do visível como se interrogassem a possibilidade do próprio retrato em si. Central a este tema será o retrato daquele que traz a máscara (uma negação do retrato de quem a usa) e que olha a três quartos, indiferente à nossa presença de espetadores, lembrando que o que vemos não é ele mas um outro, um duplo, uma representação.

Podemos igualmente entender este conjunto de fotografias como um retrato mais vasto, global, desta comunidade, das suas condições de existência e do modo como se vão construindo. Talvez a fotografia que reflita melhor esta condição seja aquela em que não aparece ninguém; apenas o lugar onde todos existem. Um lugar de suspensão do outro, que José Chambel nos oferece como reflexão sobre as (im)possibilidades de representação.

Francisco Feio, julho 2017

Ver projeto completo em: Danço Congo – Vera Cruz

 

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