Estanislau Neto

O Paradoxo das máscaras

Estanislau Neto é filho de pais santomenses e nasceu na década de setenta em N´Dalantando, na província de kwanza Norte, Angola.

Desde muito cedo revelou o gosto pelo desenho. Incentivado pelo meio pré-escolar, começou por fazer desenhos mais elaborados em comparação com os seus colegas de classe, sempre com a preocupação estética em mente.

Elegeu a disciplina de Educação Visual como a favorita ao longo do seu percurso escolar, onde obteve sempre notas mais altas em relação às outras disciplinas, na perspectiva de seguir no futuro uma carreira no domínio das belas artes.

Aos sete anos de idade acompanhado de seus familiares, regressou para São Tomé e Príncipe, viagem à terra natal dos pais, com a finalidade de ali fixarem residência definitivamente, evitando o ambiente de conflito militar que desencadeou-se em Angola na altura entre a UNITA, FNLA e o MPLA. Desde então, passou a viver nas ilhas maravilhosas até a idade adulta. Enraizou-se e envolveu-se naturalmente dentro da cultura santomense, facto que o levou a adoptar a nacionalidade dos seus pais. E desta terra, deve toda a sua formação como homem e artista, enquanto que de Angola recorda algumas memórias visuais de infância, nomeadamente as máscaras e o carnaval.

Como estudante participou em vários eventos escolares a nível de exposições de pintura e somou prémios em concursos de desenho e pintura. Esses eventos proporcionam-lhe alargar o seu leque de amizade com vários artistas e participou na fundação da AAPLAS – Associação dos Artista Plásticos Santomenses. Num ambiente fértil à criatividade, neste meio associativo desenvolve vários projectos de pintura e o seu crescimento como artista foi notabilizado ao ponto de destacar-se entre os artistas mais novos no grupo e participar em exposições colectivas no país e no estrangeiro, tais como a IV e V bienal arte contemporânea bantu no CICIBA, as jornadas luso-bantu no Centro Cultural Português em São Tomé, artistas santomenses no Centro Cultural Português em Luanda, atelier George N’Bourou-Libreville (Gabão), pintura mural na sede do PNUD em São Tomé entre muitos outros projectos artísticos.

Trabalhou como professor no Ensino Secundário de 1990 à 1998 e foi decisivo na orientação e na formação de alguns novos valores que se despertam actualmente no mundo artístico santomense que se tem tornado cada vez mais exigente.

Estanislau Neto, S. Tomé, 1997

Estanislau Neto, S. Tomé, 1997

Neste momento reside em Portugal onde frequentou o curso de Decoração e Arquitectura de Interiores, curso tecnológico da IATA – Instituto de Aperfeiçoamento Técnico Acelerado em Lisboa e no domínio das artes plásticas tem participado em alguns projectos na busca de novas experiências.

Nos últimos cinco anos uniu-se aos artistas de origem santomense em Portugal e fundaram a Plataforma Cafuka, uma associação onde teve a oportunidade de participar no projecto URB e experimentar várias intervenções urbanas como alternativas expositivas de grande visibilidade na cidade de Lisboa.

Estanislau Neto é um artista inquieto que procura constantemente novos desafios tentando acompanhar o ciclo natural da evolução artística que se tem feito sentir ao longo dos tempos e dos séculos até a actualidade.

Assim, ele está atento a tudo o que o rodeia e com a sua sensibilidade apurada observa com muito interesse as grandes questões humanas e a transformação sociopolítica que ocorre no mundo, com o destaque para os assuntos africanos e a construção da identidade santomense.

Entre a figuração humana e o abstracionismo, o artista inicia o seu percurso pela representação paisagística e durante o seu curso evolutivo experimenta diversas linguagens em simultâneo.

Influenciado pelo pintor Protásio Pina, as obras do Estanislau Neto recria as paisagens da ilha inspiradas no ambiente natural e nas cenas do quotidiano popular.

Mas a afirmação do seu trabalho só é notado nos finais dos anos noventa inserido no movimento dos artistas da AAPLAS, na qual nas composições figurativas de mulheres africanas revelavam em simultâneos ensaios de elementos abstratos, sobretudo padrões geométricos na busca incansável das matrizes de origem africana continental.

Nesta busca identitária continental, procura estudar as expressões das máscaras como o elemento mais conhecido da cultura africana muito falada no seu ambiente social e através da infografia livresca existente no país insular.

No seu último projecto plástico, desenvolve estudos da mímica infantil procurando explorar a verdade da inocência das crianças em contra ponto do cinismo do sujeito adulto que esconde os seus sentimentos e toda a verdade por detrás de falsas máscaras do olhar. O artista sente que é no olhar humano onde a verdade se revela e pode construir a narrativa da felicidade. E o sorriso é a manifestação desse sentimento excelentemente representado nos seus desenhos actuais.

Estanislau Neto, Portugal, 2017

Estanislau Neto, Portugal, 2017

O Estanislau quis através do sorriso trazer uma imagem de alegria que refletisse o futuro das crianças, na realidade de territórios onde estas constituem o maior número populacional, a memória da sua infância, num momento em que o mundo vive momentos muito difíceis.

Ao contrário do que tem sido a riquíssima paleta cromática, o pintor através do sorriso e gargalhadas representadas, opta por uma paleta monocromática reveladora da simplicidade interior que entende fluir desta verdade que procura com alguma dificuldade, ainda, de explicar através do discurso oral. Mas o sorriso está aí, presente negando as contradições iconográficas e psicológicas que só o discurso antropológico revelaria por um lado os sinais de busca identitária e por outro lado a psicanálise a explorar os sinais ideais de um novo universo tanto desejado pelo artista como modelo de sociedade.

E particularmente a sociedade de São Tomé e Príncipe sendo muito complexa e a leveza do universo infantil trazendo outras formas simples de observar o mundo, numa abordagem não muito comum, com temas de alegria das crianças representados nas artes, comunica a ideia de esperança de um país melhor segundo a opinião do artista.

Actualmente o artista plástico representa o país na VI Bienal de Arte e Culturas Lusófonas em Odivelas, onde mostra as suas pinturas da série “Sorrisos”, no Centro de Exposições de Odivelas, patente ao público até finais de Maio.

 

Ismael Sequeira,

Maio de 2017

 

 

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